Então

domingo, 12 de abril de 2015

O SONHO DOS RATOS, por Rubem Alves




Era uma vez um bando de ratos que vivia no buraco do assoalho de uma casa velha. Havia ratos de todos os tipos: grandes e pequenos, pretos e brancos, velhos e jovens, fortes e fracos, da roça e da cidade.
Mas ninguém ligava para as diferenças, porque todos estavam irmanados em torno de um sonho comum: um queijo enorme, amarelo, cheiroso, bem pertinho dos seus narizes. Comer o queijo seria a suprema felicidade…Bem pertinho é modo de dizer.
Na verdade, o queijo estava imensamente longe porque entre ele e os ratos estava um gato… O gato era malvado, tinha dentes afiados e não dormia nunca. Por vezes fingia dormir. Mas bastava que um ratinho mais corajoso se aventurasse para fora do buraco para que o gato desse um pulo e, era uma vez um ratinho…Os ratos odiavam o gato.
Quanto mais o odiavam mais irmãos se sentiam. O ódio a um inimigo comum os tornava cúmplices de um mesmo desejo: queriam que o gato morresse ou sonhavam com um cachorro…
Como nada pudessem fazer, reuniram-se para conversar. Faziam discursos, denunciavam o comportamento do gato (não se sabe bem para quem), e chegaram mesmo a escrever livros com a crítica filosófica dos gatos. Diziam que um dia chegaria em que os gatos seriam abolidos e todos seriam iguais. “Quando se estabelecer a ditadura dos ratos”, diziam os camundongos, “então todos serão felizes”…
- O queijo é grande o bastante para todos, dizia um.
- Socializaremos o queijo, dizia outro.
Todos batiam palmas e cantavam as mesmas canções.
Era comovente ver tanta fraternidade. Como seria bonito quando o gato morresse! Sonhavam. Nos seus sonhos comiam o queijo. E quanto mais o comiam, mais ele crescia. Porque esta é uma das propriedades dos queijos sonhados: não diminuem: crescem sempre. E marchavam juntos, rabos entrelaçados, gritando: “o queijo, já!”…
Sem que ninguém pudesse explicar como, o fato é que, ao acordarem, numa bela manhã, o gato tinha sumido. O queijo continuava lá, mais belo do que nunca. Bastaria dar uns poucos passos para fora do buraco. Olharam cuidadosamente ao redor. Aquilo poderia ser um truque do gato. Mas não era.
O gato havia desaparecido mesmo. Chegara o dia glorioso, e dos ratos surgiu um brado retumbante de alegria. Todos se lançaram ao queijo, irmanados numa fome comum. E foi então que a transformação aconteceu.
Bastou a primeira mordida. Compreenderam, repentinamente, que os queijos de verdade são diferentes dos queijos sonhados. Quando comidos, em vez de crescer, diminuem.
Assim, quanto maior o número dos ratos a comer o queijo, menor o naco para cada um. Os ratos começaram a olhar uns para os outros como se fossem inimigos. Olharam, cada um para a boca dos outros, para ver quanto queijo haviam comido. E os olhares se enfureceram.
Arreganharam os dentes. Esqueceram-se do gato. Eram seus próprios inimigos. A briga começou. Os mais fortes expulsaram os mais fracos a dentadas. E, ato contínuo, começaram a brigar entre si.
Alguns ameaçaram a chamar o gato, alegando que só assim se restabeleceria a ordem. O projeto de socialização do queijo foi aprovado nos seguintes termos:
“Qualquer pedaço de queijo poderá ser tomado dos seus proprietários para ser dado aos ratos magros, desde que este pedaço tenha sido abandonado pelo dono”.
Mas como rato algum jamais abandonou um queijo, os ratos magros foram condenados a ficar esperando. Os ratinhos magros, de dentro do buraco escuro, não podiam compreender o que havia acontecido.
O mais inexplicável era a transformação que se operara no focinho dos ratos fortes, agora donos do queijo. Tinham todo o jeito do gato o olhar malvado, os dentes à mostra.
Os ratos magros nem mais conseguiam perceber a diferença entre o gato de antes e os ratos de agora. E compreenderam, então, que não havia diferença alguma. Pois todo rato que fica dono do queijo vira gato. Não é por acidente que os nomes são tão parecidos.
“Qualquer semelhança com fatos reais é mera coincidência!”
Rubem Alves – escrito em dezembro de 2004
Dica da Conti outra: Conheça o Instituto Rubem Alves e acompanhe seus projetos.

domingo, 8 de março de 2015

Roberto Pompeu de Toledo: ‘Qual morte?’ Publicado na edição impressa de VEJA


ROBERTO POMPEU DE TOLEDO

Escolha sua morte preferida: (1) súbita, (2) longa, com demência, (3) longa, com idas e vindas no tratamento de um órgão doente, (4) câncer. O médico inglês Richard Smith cravou câncer, e causou comoção, não só entre seus leitores, na edição digital do British Medical Journal, como mundo afora. As quatro opções segundo Smith, que já dirigiu a revista em que hoje escreve na versão digital, esgotam, “essencialmente”, os modos de morrer. (“Suicídio, assistido ou de outra forma, é uma quinta, mas a deixo de lado por ora”, acrescentou em seu artigo.) Dos quatro tipos de morte, a pior, para ele – e para todo mundo, presume-se –, é a precedida pela demência. A da luta contra a degeneração de um órgão acaba contaminando outros órgãos, e compreende desesperadas tentativas de cura, muitos médicos, muitos hospitais, e arrastada agonia. Já morrendo de câncer, com a ajuda de convenientes doses de “amor, morfina e uísque”, argumenta Smith, “você pode dizer adeus, refletir sobre sua vida, deixar últimas mensagens, talvez visitar lugares especiais pela última vez, ouvir as músicas favoritas, ler os poemas mais queridos e preparar, de acordo com suas crenças, o encontro com seu fabricante (maker, em inglês; ele é ateu) ou o gozo do eterno esquecimento”.
Richard Smith contraria o senso comum dos nossos tempos, segundo oqual é preferível a morte súbita, e recupera o charme, se é que se pode dizer assim, da morte à antiga, com o moribundo rodeado de entes queridos. A morte súbita é identificada basicamente com o ataque cardíaco, e foi cantada por João Cabral de Melo Neto num poema inspirado pela morte do também poeta W.H. Auden, ocorrida enquanto dormia. Auden, segundo João Cabral, teria sido premiado pela morte“com a guilhotina, fuzil limpo, do ataque cardíaco”. Smith reconhece que a maioria das pessoas prefere a morte súbita. Ele costuma dizer-lhes: “Pode ser bom para você, mas pode ser muito duro para as pessoas à sua volta. Se você quer morrer de repente, viva cada dia como se fosse o último, assegurando-se de que os relacionamentos mais importantes estão em boa forma e os negócios estão em ordem”.
morte com charme à antiga é a dos romances do século XIX, época em que se morria em casa, não no hospital, e dos filmes ambientados no mesmo século. Se o moribundo for um aristocrata, ou grande burguês, morre entre coloridas almofadas, finos lençóis e, nos casos mais afortunados, cama com dossel. Modelo muito mais antigo é amorte de Sócrates, rodeado de discípulos e gastando filosofias. O problema é que o fim de Sócrates foi por condenação à morte ­ categoria não contemplada na tipologia de Smith. Ou seja: morreu no gozo da saúde. Já no câncer morre-se depauperado e com dores, às vezes horrendas – motivo pelo qual leitores do médico inglês reagiram com indignação, relatando desesperados casos de familiares. Ainda mais indignados ficaram por Smith sugerir aos governos que gastem menos com pesquisas do câncer e mais com as da demência e das doenças mentais.
Em reforço à sua preferência, Smith cita o cineasta Luis Buñuel, que confessou ter de início flertado com a ideia da morte súbita, para depois mudar de opinião. “Não tenho medo da morte“, escreveu. “Tenho medo de morrer sozinho num quarto de hotel, com minhas malas abertas e um roteiro de filme no criado-mudo Eu quero saber que dedos fecharão meus olhos.” (A propósito: a morte de Auden, cantada por João Cabral, foi num quarto de hotel, na Áustria.) Buñuel, que morreu de câncer, em 1983, nos conduz ao centro da disjuntiva morte súbita versus morteanunciada. A preferência pela morte súbita não é apenas pela ausência de dor; é também pelo desejo de poupar-se de encarar a fera olho no olho. Se a morte escapa da consciência, acredita-se, como que se escapa de morrer. Também se escapa da terrível questão do comportamento que se terá na hora fatal. Estarei pronto? Saberei encará-la com tranquilidade e serenidade?
Propor a escolha do tipo preferido de morte é um exercício fútil, claro. Escreve João Cabral, no mencionado poema: “Se morre da morte que ela quer. / É ela que escolhe seu estilo, / sem cogitar se a coisa que mata / rima com sua morte ou faz sentido”. O artigo de Richard Smith tem, no entanto, o mérito de fazer pensar na morte. Nos dias que correm reina a convicção de que o melhor é não falar nela. Quanto menos se falar, mais sossegada ela ficará em seu canto. Finge-se que ela não existe, na vã esperança de que ela resolva não existir mesmo.

domingo, 23 de novembro de 2014

ÚLTIMO CREDO - Augusto dos Anjos



ÚLTIMO CREDO 
Augusto dos Anjos
Como ama o homem adúltero o adultério
E o ébrio a garrafa tóxica de rum,
Amo o coveiro — este ladrão comum
Que arrasta a gente para o cemitério!
É o transcendentalíssimo mistério!
É o nous, é o pneuma, é o ego sum qui sum,
É a morte, é esse danado número Um
Que matou Cristo e que matou Tibério!
Creio, como o filósofo mais crente,
Na generalidade decrescente
Com que a substância cósmica evolui...
Creio, perante a evolução imensa,
Que o homem universal de amanhã vença
O homem particular que eu ontem fui!

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

"A memória guardará o que valer a pena. A memória sabe de mim mais que eu; e ela não perde o que merece ser salvo". Eduardo Galeano




Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma.

Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.

Fernado Pessoa



terça-feira, 5 de agosto de 2014

Academia divulga finalistas do Grande Prêmio do Cinema Brasileiro 2014


Cena do filme Faroeste Caboclo, um dos líderes em número de indicaçõesDivulgação Academia Brasileira de Cinema

Os filmes Faroeste Caboclo, de René Sampaio, Serra Pelada, de Heitor Dhalia, e Flores Raras, de Bruno Barreto, lideram com o maior número de indicações a relação de finalistas do Grande Prêmio do Cinema Brasileiro 2014, anunciada hoje (4). A cerimônia de entrega será no próximo dia 26, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, e premiará, em 26 categorias, filmes que tiveram lançamento comercial ao longo de 2013. A festa terá como grande homenageado o diretor e dramaturgo Domingos Oliveira.
Realização da Academia Brasileira de Cinema, com patrocínio e apoio de empresas do setor audiovisual, o Grande Prêmio do Cinema Brasileiro, que chega este ano à sua 13ª edição, segue o modelo de premiações semelhantes do cinema internacional, como o Oscar norte-americano e o César francês. Os indicados em cada categoria são votados pelos membros da academia, da qual fazem parte mais de 200 profissionais de todos os segmentos da atividade cinematográfica.
Além de Faroeste Caboclo e Flores Raras, concorrem ao prêmio de melhor longa-metragem de ficção os filmes Cine Holliúdy, de Halder Gomes; O Som ao Redor, de Kleber Mendonça Filho e Tatuagem, de Hilton Lacerda. Os cineastas desses cinco filmes também concorrem ao prêmio de melhor direção.
Para melhor ator, a disputa se dá entre Edmilson Filho (Cine Holliúdy), Fabrício Boliveira (FaroesteCaboclo), Irandhir Santos (Tatuagem e O Som ao Redor) e Jesuíta Barbosa (Tatuagem). Já para melhor atriz concorrem Fernanda Montenegro (O Tempo e o Vento), Gloria Pires (Flores Raras), Leandra Leal (Mato sem Cachorro), Isis Valverde (Faroeste Caboclo) e Sophie Charlotte (Serra Pelada)
O Grande Prêmio do Cinema Brasileiro também contempla o melhor longa-metragem documentário, categoria para a qual concorrem A Luz do Tom, de Nelson Pereira dos Santos;Dossiê Jango, de Paulo Henrique Fontenelle; Elena, de Petra Costa; Jorge Mautner – O Filho do Holocausto, de Pedro Bial e Heitor D'Alincourt; O Dia Que Durou 21 Anos, de Camilo Tavares, e São Silvestre, de Lina Chamie. Os filmes Minhocas, de Paulo Conti, e Uma História de Amor e Fúria, de Luiz Bolognesi, disputam o prêmio de melhor longa de animação.
Uma novidade deste ano é a criação da categoria melhor longa-metragem de comédia, disputada por Mato sem Cachorro, de Pedro Amorim; Meu Passado me Condena, de Julia Rezende; Colegas, de Marcelo Galvão”; Minha Mãe É Uma Peça, de André Pellenz, além de Cine Holliúdy. “A comédia é uma tradição do cinema brasileiro, mas sempre foi pouco valorizada”, diz o presidente da Academia Brasileira de Cinema, Roberto Farias, ao justificar a criação da categoria.
Para Farias, a importância do Grande Prêmio se deve ao fato de ser concedido pela própria classe cinematográfica. “É o reconhecimento e o aplauso dos cineastas ao talento de seus pares”, define.
A votação do prêmio ocorre em duas etapas. Na fase de indicação, são escolhidas os cinco filmes e profissionais de cada categoria que passarão para a etapa seguinte. Depois, entre esses finalistas são escolhidos os vencedores, por meio de nova votação dos sócios da academia e também do público, que ocorre em três categorias: melhor longa de ficção, melhor longa documentário e melhor longa estrangeiro. O acompanhamento e a auditoria são feitos pela mesma empresa encarregada da apuração do Oscar. 
 da Agência Brasil