Então

terça-feira, 27 de julho de 2010

Nova edição de guia de saúde mental pode classificar quase todos com transtorno


Guia para diagnóstico será publicado em maio de 2013 e pode desvalorizar gravidade de doenças


Uma edição atualizada da "Bíblia" sobre saúde mental usada pelos médicos pode incluir diagnósticos de "transtornos" como birras da criança e compulsão alimentar, o que poderia significar que em breve ninguém mais vai ser classificado como normal.

Principais especialistas em saúde mental alertaram nesta terça-feira, 27, que uma nova edição do Manual de Diagnóstico e Estatística de Transtornos Mentais, que está sendo revisado agora para publicação em maio de 2013, poderia desvalorizar a gravidade de doenças mentais e rotular quase todas as pessoas com algum tipo de desordem.

Citando exemplos de novas atualizações, como "depressão com ansiedade suave", "síndrome com risco de psicose" e "transtorno do temperamento irregular", os especialistas disseram que muitas pessoas perfeitamente saudáveis poderiam no futuro ser informadas de que estão doentes.

"Fazer isso é reduzir de uma piscina para uma poça d'água o que é normal", disse Til Wykes, do Instituto de Psiquiatria do Kings College London.

O manual é publicado pela Associação Psiquiátrica Americana e contém descrições, sintomas e outros critérios para o diagnóstico de transtornos mentais. É visto como a Bíblia global para o campo da medicina de saúde mental.

Os critérios são estabelecidos para fornecer definições claras a profissionais que tratam pacientes com transtornos mentais e a pesquisadores e empresas da indústria farmacêutica que procuram desenvolver novas formas de tratamento.

Wykes e os colegas Felicity Callard, também do Instituto de Psiquiatria do Kings College, e Nick Craddock, do Departamento de Medicina Psicológica e Neurologia da Universidade de Cardiff, disseram que muitos na comunidade psiquiátrica estão preocupados com a expansão das orientações, pois o mais provável será que ninguém mais será classificado como normal.

"Tecnicamente, com a classificação de tantos novos transtornos, todos teremos disordens", disseram eles em declaração conjunta. "Isso pode levar a crer que muitos de nós também 'precisamos' de drogas para tratar nossas 'condições' - e muitas dessas drogas podem ter efeitos colaterais desagradáveis ou perigosos."

Os cientistas disseram que o diagnóstico da "síndrome do risco de psicose" é particularmente preocupante, pois poderia rotular falsamente jovens que podem ter apenas um pequeno risco de desenvolver a doença.

"É um pouco como dizer a 10 pessoas com um resfriado comum que elas estão "em risco de ter uma síndrome de pneumonia", quando apenas um tem a probabilidade de desenvolver a doença", disse Wykes.

A Associação Psiquiátrica Americana não respondeu a um pedido de comentário sobre o assunto.

Os cientistas deram exemplos usando a revisão anterior do manual, que foi chamada de DSM 4 e incluiu diagnósticos mais amplos e categorias para déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), autismo e transtorno bipolar na infância.

Isso, segundo eles, "contribuiu para três epidemias falsas", particularmente nos Estados Unidos. "Durante a última década, quantos médicos alarmaram pais a dar drogas como Ritalina para crianças sem elas realmente precisarem?", perguntou Wykes.

Milhões de pessoas em todo o mundo - muitas delas, crianças - tomam medicamentos para TDAH, incluindo Ritalina, que é conhecido genericamente como metilfenidato, e drogas afins, como Adderall e Vyvanse. Só nos Estados Unidos, as vendas desses medicamentos representavam cerca de US$ 4,8 bilhões em 2008.

Wykes e Callard publicaram comentário no Jornal de Saúde Mental expressando preocupação com a próxima revisão do manual e destacando 10 ou mais documentos de outros cientistas que também estão preocupados.

fonte:Reuters

terça-feira, 20 de julho de 2010

Para a Mina e para Joana


A saudade é um parafuso
que quando a rosca cai
só entra se for torcendo
porque batendo não vai.
Mas quando enferruja dentro
nem distorcendo não sai.

Raul Seixas

domingo, 18 de julho de 2010

Jabulani, a bola mais criticada

Ninguém recebeu mais críticas durante a Copa do Mundo de futebol do que Jabulani, a bola oficial do torneio. Ela foi chamada pelos jogadores de "bola de supermercado" (Julio César), "bola sobrenatural" (Luis Fabiano) e até de "bola patricinha" (Felipe Melo).

A história moderna da bola de futebol remonta à Copa de 70, ocasião em que o mundo foi apresentado a uma bola de futebol cuja forma se mostrou tão conveniente que permaneceu em uso até o recente aparecimento da Jabulani.

A concepção da bola consagrada em 70 foi inspirada em um conhecido poliedro convexo, descoberto por Arquimedes, denominado de icosaedro truncado. O icosaedro regular é um poliedro convexo de 20 faces triangulares, e o icosaedro truncado, um poliedro convexo obtido após fazermos "cortes" nos vértices do icosaedro regular.

Por serem poliedros, tanto o icosaedro regular como o truncado atendem à seguinte relação, conhecida como teorema de Euler: o número de vértices (V) mais o de faces (F) excede em 2 a quantidade de arestas (A), ou seja, V+F = A+2.

No caso do icosaedro regular, suas 20 faces são triângulos equiláteros, sendo que cada vértice do sólido é formado pela junção de quatro triângulos, o que concede a ele 12 vértices e 30 arestas. As 32 faces do icosaedro truncado são formadas por 12 pentágonos regulares e 20 hexágonos regulares. Cada um dos 60 vértices do icosaedro truncado é formado pela junção de 1 pentágono e 2 hexágonos, o que resulta ao sólido o total de 90 arestas. Poliedros cujas faces regulares são de mais de um tipo, como o icosaedro truncado, que possui faces pentagonais e hexagonais, recebem o nome de sólidos de Arquimedes.

Desde os anos 70, portanto, a fabricação da bola tradicional de futebol é feita inflando-se um icosaedro truncado de faces flexíveis até se obter um sólido "suavemente" esférico. A novidade introduzida pela Jabulani é o fato de que o poliedro de material flexível inflável nela utilizado é composto apenas por pentágonos regulares, como se vê no vídeo da sua fabricação.

Para entendermos por que uma bola como a Jabulani implica uma trajetória mais irregular do que a da bola tradicional, é razoável olhar para a planificação das faces a partir de um dos vértices do poliedro e compará-la com a da bola tradicional.

Observe que o "ângulo de folga" com relação a 360 é menor na bola tradicional do que na Jabulani, o que, em última análise, implica dizer que, quando inflada, a bola clássica irá gerar uma superfície mais suave -e menos suscetível à trajetória irregular- do que a Jabulani.

Não só nossos jogadores estão "matematicamente" corretos em reclamar da Jabulani, como também podemos dar um novo apelido a ela: Jabulani, a "bola não arquimediana".

JOSÉ LUIZ PASTORE MELLO é graduado e mestre pela USP e professor de matemática do Colégio Santa Cruz.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Os ratos dão razão a Kant - Fernando Reinach


Fernando Reinach

Você sabe exatamente onde está ? provavelmente sentado, lendo jornal. Uma das funções importantes do nosso cérebro é coletar as informações originadas nos órgãos dos sentidos, como visão e tato, processar essa informação e nos manter informados sobre nossa localização.

Apesar de o sistema de localização utilizado pelo cérebro ser muito estudado, havia uma polêmica entre os cientistas. Alguns acreditavam que esse sistema era resultado do aprendizado, sendo desenvolvido durante a infância. Isso sugeria que o cérebro de um recém-nascido se assemelha a uma página em branco, que é preenchida ao longo do desenvolvimento ? uma ideia associada ao pensamento de Descartes. Outros acreditavam que nascemos com um cérebro capaz de determinar nossa localização no espaço ? uma ideia associada a Kant, que acreditava que a noção de espaço e tempo é uma pré-condição para o aprendizado. A novidade é que estudos com ratos recém-nascidos demonstram que, ao abrirem os olhos, eles já possuem o aparato cerebral capaz de localizá-los no espaço.

Dificilmente encontraremos um rato em uma cadeira lendo jornal, mas foi no cérebro desse animal que o sistema de localização foi mais estudado. O rato utiliza a informação espacial para se orientar quando procura alimentos, parceiros sexuais ou quando volta para o ninho.

Há muitos anos foi descoberto que existem diversos tipos de neurônios envolvidos no processamento de informações espaciais. Esses neurônios foram descobertos quando cientistas implantaram minúsculos eletrodos no cérebro de ratos. Esses eletrodos são capazes de detectar a atividade de cada neurônio e enviar essa informação a um computador. Quando os ratos monitorados foram soltos em suas gaiolas e a atividade dos neurônios foi monitorada, os cientistas descobriram que existem diversas classes de neurônios.

Uma das classes, a dos neurônios "localizadores", dispara sinais elétricos quando o rato passa em um determinado local da gaiola. Para cada local da gaiola foi possível detectar vários desses neurônios. Existem neurônios para o canto esquerdo, o canto direito e assim por diante. Toda vez que o rato passa por esse local, independentemente de onde ele vinha ou para onde ia, esses neurônios disparam.

Um segundo tipo de neurônio, chamado de "direcional", dispara sempre que o rato está orientado em uma direção. Assim, por exemplo, um neurônio "direcional norte" dispara sempre que o corpo do rato está orientado em direção ao norte, independentemente de onde ele está na gaiola. Um neurônio "direcional sul" dispara quando o nariz do rato está apontado para o sul e assim por diante.

Habilidade inata. No novo experimento, os cientistas, usando técnicas de microcirurgia, foram capazes de implantar os eletrodos em dezenas de ratos recém-nascidos, que nunca haviam saído do ninho ou sequer aberto os olhos.

Os ratos foram colocados de volta no ninho e, dias depois, assim que saíram pela primeira vez para passear pela gaiola, seus neurônios já estavam sendo monitorados. A descoberta é que nesses ratos foi possível detectar a existência de neurônios "localizadores" e neurônios "direcionais" com características idênticas às existentes nos ratos adultos.

O fato de esses neurônios existirem antes de haver qualquer aprendizado sobre o ambiente sugere que os ratos nascem com a capacidade de se localizar. Portanto, ela deve estar codificada diretamente no seu genoma não dependendo do aprendizado. É mais uma demonstração de que nascemos com o cérebro parcialmente pré-configurado. Se Kant estivesse vivo, provavelmente ficaria feliz com essa descoberta.

BIÓLOGO

MAIS INFORMAÇÕES: DEVELOPMENT OF THE SPACIAL REPRESENTATION SYSTEM IN THE RAT. SCIENCE, VOL. 328

fonte 
- O Estado de S.Paulo