Então

domingo, 9 de maio de 2010

Acolchoado por VERISSIMO

Nem te conto...

- O quê?

(O casal estava no carro, voltando de uma festa na casa de amigos. Marjori e Mário Luiz, idade entre 35 e 40, classe B, B e meio, por aí.)

- Eu fui no banheiro...

- Eu vi.

- Você viu? Você passa o tempo todo me cuidando, Mário Luiz?

- Não, Marjori. Você tinha bebido e eu achei que você estivesse passando mal.

- Eu quase não bebi e não estava passando mal. Fui fazer xixi.

- Está bem, está bem. O que você ia contar?

- Eu estava perfeitamente sóbria. Aliás, acho que era a única pessoa sóbria na festa.

- Está certo! Agora conta.

- Você sabe que o assento da privada no lavabo da Celinha é acolchoado?

- Acolchoado?

- E não só isso. O acolchoado é zebrado.

- Como, zebrado?

- Zebrado! O tecido que cobre o acolchoado tem um padrão de zebra. Preto e branco.

- E daí?

- Como "e daí", Mário Luiz? O que é que isso te diz?

- Não me diz nada. Acho até bem bolado. Não há razão pra gente não ficar confortável quando...

- Mário Luiz! Era no lavabo. Se fosse no banheiro da suíte deles, vá lá. Não me interessa o que a Celinha e o Germano têm no banheiro deles. Mas isto era no lavabo, no banheiro das visitas. A Celinha estava fazendo uma declaração pública. Aquilo é uma mensagem ostensiva da Celinha para quem vai na casa dela.

- Então: uma gentileza dela pras visitas. Pro bumbum das visitas.

- Você não acha um acinte? Quase uma provocação?

- Por que?

- Francamente, Mário Luiz. Eu me lembro quando você ficou indignado com o cortador de cabelinho do nariz que a Flávia trouxe da Europa pro Mingão.

- O cortador de cabelinho do nariz era de ouro. O assento da privada é de quê? Espuma? No máximo de espuma.

- E o simbolismo da coisa?

- Simbolismo de quê? Da decadência do Ocidente? Do ponto em que chegou a alienação da elite brasileira? E você não pensou que podia ser kitsch de propósito?

- O que é kitsch de propósito?

- É quando alguém faz alguma coisa como forrar o assento da privada com um acolchoado zebrado sabendo que é kitsch e esperando que os outros entendam que o kitsch é de propósito, e achem graça. Você simplesmente não entendeu o assento da privada da Celinha, Marjori.

- Como você mudou, hein Mário Luiz.

- Eu mudei?

- E pensar que nós nos conhecemos num congresso de estudantes em Cuba.

- Marjori...

- Francamente, Mário Luiz!

fonte; Estadão.com.br

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Entre palavras e legumes por Cristovão Tezza



E, em se tratando de palavras, nenhuma relação entre quantidade e qualidade – até pelo contrário. Machado de Assis não passava de 5 mil palavras, e continua fazendo sentido

Infinita é a ignorância humana – e, para não ficar pontificando sobre a espécie, refiro-me exatamente a esse exemplar que vos fala, já passado mais de meio século de vida torta. Volta e meia, tropeço numa palavra – gaio, tricórnio, si lep se, adua – em que só uma sombra de sentido me ocorre, por adivinhação ou trapaça, e vou adiante como quem atravessa a rua e finge não ver o conhecido porque os brancos, ou os vácuos, são cada vez mais frequentes. Antigamente era a viagem ao dicionário, volumões de letra miúda. Hoje é o conforto do google, que usado com engenho e arte nos leva aos píncaros da física quântica. Vamos catando palavras e criando repertório. Dizem que nosso dia a dia gira em torno de 3 mil palavras – o mesmo vocabulário dos índios e dos que não têm escrita.

Para quem foi à escola e pegou jeito, o vocabulário sobe para os 5 mil, quem sabe 7 mil, se o sujeito for caxias, mas é um estoque usado com parcimônia, ou ninguém nos aguenta. É uma reserva passiva, para uso na leitura, às vezes na escrita, quase nunca na fala. E há os cercadinhos profissionais, o jargão dos médicos, dos mecânicos, dos advogados (quando têm gosto pela coisa, estes capricham no vernáculo, palavras paramentadas, entonação de sabiá); e há o vocabulário do crime, do colarinho branco e dos sem-colarinho, e por aí vai, cada nicho com sua língua, truques, subentendidos, gírias e silêncios. E, em se tratando de palavras, nenhuma relação entre quantidade e qualidade – até pelo contrário. Machado de Assis não passava de 5 mil palavras, e continua fazendo sentido.

Os políticos criam-se e morrem pela língua, que é arma poderosa. Lula é um gênio da fala – com frases curtas, vai direto ao osso, a afirmação límpida e precisa. E, é claro, popular – é ao homem simples que ele se dirige, e não ao letrado; nada é abstrato no que ele diz, toda me táfora é concreta. Já FHC, por excesso de letras, tartamudeia em golfadas sintáticas e gagueiras semânticas, o acadêmico posto ao chão da realidade, indócil no improviso. Dilma fala no tom das assembleias de partido, sindicato ou facção, o pensamento em blocos, a voz avançando agressiva, dedo em riste. Serra tem o tom soturno de um temido professor de colégio, dos que não erguem a voz – inspira respeito, autoridade e medo, mas nem sempre confiança. Marina tem a consistência didática, mas monocórdia, da declamação. E Ciro não põe coleira nas pa lavras, que escapam, como a Presidência.

Nem preciso dizer que nada disso tem relação com competência política ou administrativa, que é outra história, antes que me achincalhem por induzir o leitor a erro. Aliás, o que eu queria mesmo, quando perdi o rumo, era falar de abóboras. Aca bo de descobrir que há centenas de variedades de abóboras, da cucurbita maxima à cucurbita moschata – sem esquecer, é claro, da abobrinha, alimento indispensável na dieta dos cronistas.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Cinemas de rua transformam mais a vizinhança que os de shopping


O Cine Belas Artes, um dos mais tradicionais cinemas de São Paulo corre, de novo, o risco de baixar as portas.

"Já procuramos umas 20 empresas, mas, até agora, não conseguimos nenhum patrocínio para o lugar do HSBC", diz André Sturm, um dos sócios do Belas Artes.

O banco, que tinha atrelado sua marca ao espaço em 2004, rompeu o contrato no final de março.

"Se a gente não conseguir um patrocínio até julho, fecho o cinema até o final do ano", diz.

Pesquisa da USP mostra que os cinemas de arte, mais independentes, causam mais transformações físicas e sociais no espaço urbano que as grandes redes de cinema instaladas em shoppings. O motivo: o perfil dos frequentadores

Remanescente dos tempos em que os cinemas ficavam na rua, e não nos shoppings, o Belas Artes foi escolhido, pelo Guia da Folha, este ano, como o detentor da melhor programação de São Paulo.

O que transforma mais o espaço urbano? Os cinemas de arte e mais independentes, como os que existe na região da Avenida Paulista, em São Paulo, ou as grandes redes instaladas nos shoppings centers, também chamadas de multiplex? De bate-pronto, muita gente responderia a segunda opção. Mas um geógrafo pesquisador da Universidade de São Paulo descobriu que o frequentador de multiplex usa o espaço do shopping de maneira temporária e menos sólida, uma vez que é cerceado e controlado pelas regras do shopping. "Quando esse frequentador muda de amizades, de namorada, de tipo de entretenimento, por exemplo, ele também muda de cinema" diz o pesquisador Eduardo Baider Stefani.

Já os cinemas de arte, que se instalam em ruas, galerias e espaços culturais, não possuem padronização nas salas e exibem produções um pouco mais independentes, trazem espectadores preocupados com o conteúdo do filme, e não com as tecnologias das salas de exibição. "O frequentador, nesse caso, vê o filme como uma forma de adquirir cultura e não como um simples entretenimento", afirma Stefani. Por isso tais cinemas oferecem transformações urbanas mais intensas, sólidas e perceptíveis do que os multiplex.

fonte: FolhaOnline & Época

segunda-feira, 3 de maio de 2010

A beleza das imagens brutas



O checo Miroslav Tichý tem sua obra pela primeira vez exibida nos EUA


O International Center of Photography (ICP), em Nova York, está realiza a primeira mostra do fotógrafo checo Miroslav Tichý apresentada por um museu americano. Mais singular que isso: só há seis anos, depois de ganhar o Prêmio Nova Descoberta da 1.ª Bienal de Arte Contemporânea de Sevilha, Tichý começou a ser conhecido fora de Kyjov, cidade da Morávia com pouco mais de 12 mil habitantes. Ele tem 83 anos, não fotografa há pelo menos 20 e suas fotos são quase que unicamente de mulheres de Kyjov. Tiradas com câmeras feitas à mão, desfocadas, mal reveladas, sujas e muitas vezes tidas como resultado de uma mente esquizofrênica, as fotos de Tichý têm o efeito de poesia melancólica e bruta.

Tichý começou a fotografar por volta dos anos 60. Seu imenso arquivo pessoal permaneceu secreto até ser descoberto pelo psiquiatra Roman Buxbaum, sobrinho de um médico de Kyjov que havia tratado dele em várias internações por problemas mentais. Buxbaum produziu um documentário sobre ele com o título Tarzan Retired (Tarzan Aposentado), extraído da explicação do próprio fotógrafo quando lhe perguntavam o que ele fazia na vida. E, quase 50 anos depois de ter desistido de ser pintor, Tichý voltou a ser visto como artista. Nos últimos cinco anos, suas fotos têm sido exibidas em grandes galerias europeias, entraram para o acervo de museus como o Pompidou e alcançaram lances de até 10 mil em leilões na Europa.

Com o dinheiro da pensão por invalidez, Tichý comprava filme, papel e químicos para revelação. Mas muita gente em Kyjov pensava que ele fazia de conta que fotografava quando o via escondido atrás de arbustos em parques ou na piscina pública da cidade. Seu equipamento era feito de caixas de sapato montadas com pedaços de cano, fita adesiva, tampas de garrafa e lentes de plástico polido com pasta de dente e cinza.

Câmeras. O laboratório dele não passava de um canto da casa onde morava, separado por pedaços de pano, com a janela borrada por tinta preta e uma lâmpada comum pintada com tinta vermelha. O ampliador era feito do mesmo material que suas câmeras. No documentário de Buxbaum, ele conta que gastava em média, por dia, três rolos de 36 chapas cada um. Fez isso por mais de 20 anos. Tão logo as revelava, Tichý jogava as fotos pela casa, não se importava em andar sobre elas e, como fez com suas telas, queimou muitas delas para se aquecer.

No filme, Tichý lembra que "fotografar é pintar com luz". E essa sua pintura é sutilmente erótica. Em milhares de fotos, o tema é o mesmo: a forma feminina, às vezes apenas fragmento dela, em roupa de banho e gravada no filme sem que a modelo se desse conta disso. Buxbaum compara essas imagens a desenhos para estudos de nus.

"Há tantas revistas que oferecem muito mais nudez que Tichý, mas as fotografias dele são diferentes", diz Radek Horacek, diretor da galeria Casa de Arte de Brno, também na Morávia, que realizou uma das primeiras individuais do fotógrafo em seu país, quatro anos atrás. "Elas são, de certa forma, misteriosas." O método intuitivo de Tichý fotografar vagando por sua cidade "pode parecer amador em ambição", diz Brian Wallis, curador-chefe do ICP e organizador da exposição, em cartaz até domingo. "Mas a intensidade, frequência e regularidade com que ele cria revela um estilo de fotografia único e distintamente pessoal."

Mito da caverna. Tichý fazia só uma impressão de cada negativo. Em geral, decorava a superfície e as bordas de suas fotos desenhando a lápis ou a caneta sobre elas e as emoldurava sobre pedaços de jornal ou papelão. Numa das sequências de Tarzan Retired, ele ampara uma explicação sobre suas fotos no mito da caverna, com que Platão filosofava que a realidade está no mundo das ideias: "É um mero reflexo, uma imagem projetada, sombras na parede de uma caverna."

Miroslav Tichý PINTOR E FOTÓGRAFO CV: Filho único do alfaiate Antonìn Tichý e de ?ofie Adamcovà, filha de um político local, Miroslav Tichý nasceu em Netcice, lugarejo vizinho de Kyjov, na República Checa, em 20/11/1926. Estudou pintura na Academia de Belas Artes de Praga por três anos, mas rebelou-se contra o realismo socialista imposto na escola. Abandonou os estudos, voltou para Kyjov e decidiu pintar só para ele mesmo. Cabeludo, barbudo, com roupas rasgadas, perambulava pelas ruas da cidade. Os moradores o viam como maluco, mas inofensivo. Considerado problema para o regime comunista, volta e meia era posto em instituições psiquiátricas. Sempre viveu em isolamento e pintou até 1972, quando seu estúdio foi tomado pelo Estado. Em meados dos anos 80, o psiquiatra Roman Buxbaum, voltou a Kyjov, ganhou a simpatia de Tichý e começou a fazer um documentário sobre ele. Em 2004, Buxbaum criou a Tichý Oceàn Foundation, para documentar, administrar e divulgar o trabalho do fotógrafo.

fonte: jonal Estado de São Paulo

Festival de Cannes volta às origens



Festival de publicidade, fundado há 57 anos por produtores e diretores de filmes comerciais, vai premiar os profissionais que ficam atrás das câmeras


Por Marili Ribeiro

Nunca se exigiu tanto da produção de filmes comerciais como agora, em tempos de comunicação segmentada. Reter a atenção do consumidor para as mensagens publicitárias requer mais do que uma boa ideia desenvolvida pela agência de propaganda. Pede produção cuidada em cada detalhe. O reconhecimento dessa demanda do mercado levou a organização da 57.ª edição do Festival Internacional de Publicidade de Cannes, que será realizado em junho, na França, a criar um prêmio para a turma que rala atrás das câmeras.

A recém-criada categoria Film Craft Lions vai selecionar os profissionais que se destacam na qualidade técnica durante o processo de produção de filmes, desde a qualidade da direção à edição final.

O curioso nessa "novidade" é que o Festival deve sua origem justamente aos produtores e diretores de filmes publicitários. Há 57 anos, eles se reuniam em Veneza, na Itália, para premiar a produção de comerciais. Só em 1984 é que a cidade francesa passou a abrigar o evento. Nos primeiros anos da premiação, a tela de cinema era o espaço nobre da propaganda. Desde então, a televisão roubou a cena e, agora, a internet dá as cartas.

O júri da nova categoria vai ter de avaliar se a execução, durante a gravação do comercial, foi capaz de atribuir valor à ideia proposta pela agência. A habilidade no uso de recursos ? como música e animação ? também será contemplada.

"Publicidade só existe se houver uma grande ideia. Mas, para que essa grande ideia mereça destaque, tem de ter uma realização tão genial que até possa melhorá-la", diz João Daniel Tikhomiroff, presidente e diretor da Mixer Brazil, que será o representante brasileiro no júri da categoria que estreia este ano no Festival de Cannes.

A inglesa Emap, que realiza o evento, vem abrindo vários níveis de premiação no festival. Hoje, há troféus para o design de peças de comunicação, para as ações de relações públicas do anunciante, assim como para anúncios impressos, promoções e, claro, o uso da internet.

"A motivação para a criação de outras categorias é aumentar o faturamento dos organizadores", afirma o diretor de propaganda Pedro Becker, sócio na produtora Fat Bastards. "Mas, ainda assim, o fato de o prêmio existir é positivo para o segmento." Para Becker, a qualidade da produção aumenta na mesma proporção da necessidade de chamar a atenção de um consumidor bombardeado por informações vindas de inúmeras plataformas de comunicação.

A qualidade das produtoras brasileiras, na avaliação de Tikhomiroff, há muito já foi provada. "Há produtoras no País que já ganharam prêmios que as agências de publicidade nunca ganharam em Cannes", diz. É o caso, por exemplo, da própria Mixer, que está por trás de um Titanium, hoje o prêmio máximo do Festival de Cannes. Foi ganho na filmagem da campanha do carro Mini Cooper, para a BMW. Outro caso é o da produtora Zoar Cinema, que levou um Grand Prix na categoria filme publicitário em trabalho para a campanha do Playstation.

Outro movimento que reforça a relevância das produtoras de propaganda é a crescente aposta dos anunciantes em mais conteúdo. "Diante de um consumidor arredio, a mensagem precisa se inserir como entretenimento", explica Tikhomiroff.

Celeiro. A produção de comerciais sempre foi celeiro para formação de grandes diretores. Entre eles estão Ridley Scott, Spike Jonze e Wim Wenders, que, este ano, serão palestrantes no Festival. Vão falar sobre a relevância de fazer publicidade no caminho que os levou aos longas.

"Na publicidade se aprende a ter domínio sobre a síntese, que é fundamental no fazer cinema", explica Tikhomiroff, que também dirige longas. "Temos de contar histórias em 30 segundos e desenvolver técnicas para contá-las com humor ou drama. Isso dá uma prática fabulosa no processo de direção."

Fonte o Estado de São Paulo