Então

sexta-feira, 2 de março de 2012

Epigrama - Gregório de Mattos e Guerra




I
Juízo anatômico dos achaques que padecia o corpo da República em todos os membros, e inteira definição do que em todos os tempos é a Bahia.
Que falta nesta cidade?... Verdade.
Que mais por sua desonra?... Honra.
Falta mais que se lhe ponha?... Vergonha.

O demo a viver se exponha,
Por mais que a fama a exalta,
Numa cidade onde falta
Verdade, honra, vergonha.

Quem a pôs neste rocrócio?... Negócio.
Quem causa tal perdição?... Ambição.
E no meio desta loucura?... Usura.

Notável desaventura
De um povo néscio e sandeu,
Que não sabe que perdeu
Negócio, ambição, usura.

Quais são seus doces objetos?... Pretos.
Tem outros bens mais maciços?... Mestiços.
Quais destes lhe são mais gratos?... Mulatos.

Dou ao Demo os insensatos,
Dou ao Demo o povo asnal,
Que estima por cabedal,
Pretos, mestiços, mulatos.

Quem faz os círios mesquinhos?... Meirinhos.
Quem faz as farinhas tardas?... Guardas.
Quem as tem nos aposentos?... Sargentos.

Os círios lá vem aos centos,
E a terra fica esfaimando,
Porque os vão atravessando
Meirinhos, guardas, sargentos.

E que justiça a resguarda?... Bastarda.
É grátis distribuída?... Vendida.
Que tem, que a todos assusta?... Injusta.

Valha-nos Deus, o que custa
O que El-Rei nos dá de graça.
Que anda a Justiça na praça
Bastarda, vendida, injusta.

Que vai pela clerezia?... Simonia.
E pelos membros da Igreja?... Inveja.
Cuidei que mais se lhe punha?... Unha

Sazonada caramunha,
Enfim, que na Santa Sé
O que mais se pratica é
Simonia, inveja e unha.

E nos frades há manqueiras?... Freiras.
Em que ocupam os serões?... Sermões.
Não se ocupam em disputas?... Putas.

Com palavras dissolutas
Me concluo na verdade,
Que as lidas todas de um frade
São freiras, sermões e putas.

O açúcar já acabou?... Baixou.
E o dinheiro se extinguiu?... Subiu.
Logo já convalesceu?... Morreu.

À Bahia aconteceu
O que a um doente acontece:
Cai na cama, e o mal cresce,
Baixou, subiu, morreu.

A Câmara não acode?... Não pode.
Pois não tem todo o poder?... Não quer.
É que o Governo a convence?... Não vence.

Quem haverá que tal pense,
Que uma câmara tão nobre,
Por ver-se mísera e pobre,
Não pode, não quer, não vence.

Gregório de Mattos e Guerra
 (1633/1696), o Boca do Inferno, nascido na Bahia, foi o primeiro de nossos satíricos, homem de língua destravada e fácil veia poética. Estudou humanidades em Portugal, tendo feito o curso de leis na Universidade de Coimbra. Na terra mãe foi juiz criminal e de órfãos. Voltou ao Brasil com 47 anos, sob a proteção do arcebispo da Bahia, D. Gaspar Barata. Tantas e tais fez que não só perdeu a proteção do prelado, como ainda foi degredado para Angola. Reabilitado, voltou ao Brasil, indo para Recife, onde conquistou simpatias e viveu com menos turbulência que na Bahia. É o patrono da cadeira n.º 16 da Academia Brasileira de Letras. Além de versos satíricos e humorísticos, escreveu poesias eróticas com a maior incontinência verbal.

Texto extraído de "Antologia de Humorismo e Sátira" 
Editora Civilização Brasileira - Rio de Janeiro, 1957, pág. 05.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

VLADO: 30 anos depois



Parte 1


Parte2


Parte3


Parte4


Parte5


Parte6


Fonte: YouTube-brunafonte

Nota do Instituto Vladimir Herzog - Reportagem Folha de S.Paulo



O Instituto Vladimir Herzog congratula-se com a Folha de S.Paulo pela reportagem O Instante Decisivo, de autoria do repórter Lucas Ferraz, publicada no dia 5 de Fevereiro último, em que o sr. Silvaldo Leung Vieira admite ter sido quem fotografou o corpo do jornalista Vladimir Herzog, com os joelhos dobrados e apoiados sobre o solo, tendo uma corda envolvendo seu pescoço e presa a uma janela. A foto foi feita em 25 de Outubro de 1975, numa cela do DOI-Codi (Destacamento de Operações de Informações-Centro de Operações de Defesa Interna), notório órgão de repressão política da ditadura que dominava o Brasil na época.
Essa documentação fotográfica da farsa montada nos porões do totalitarismo se destinava claramente a coonestar a versão formalizada em nota oficial pela ditadura, no sentido de que Vlado – como era conhecido pelos amigos – se suicidara. Em conseqüência de processo movido pela viúva Clarice Herzog, tal versão foi posteriormente desmentida pela Justiça e pelo governo brasileiros, que reconheceram ter o jornalista sido torturado e assassinado pelos esbirros que povoavam os cárceres da ditadura. Vlado foi o 38º preso político cuja morte foi oficialmente classificada como suicídio – forma usual de disfarce para o que não passava de assassinato.
Mas a publicação, agora, dessa reportagem se torna extremamente oportuna logo após a sanção, pela Presidência da República, da Lei de Acesso a Informações Públicas e dá renovada urgência à necessidade de implantação e ativação da Comissão da Verdade, com a nomeação de seus membros pela presidenta Dilma Rousseff.
Dedicado à luta pelos direitos humanos à vida e à justiça, o Instituto Vladimir Herzog acredita que uma das primeiras missões dessa Comissão deveria ser a de inquirir o sr. Silvaldo Leung Vieira, com total transparência e isenção, para que ele esclareça pormenorizadamente as circunstâncias em que realizou a foto em questão, de forma a permitir o aprofundamento e ampliação da investigação.
Segundo ele, na condição de fotógrafo da Polícia Civil de São Paulo, recebeu ordem para fazer esse trabalho por requisição do DOPS-Departamento de Ordem Política e Social. Mas quem lhe teria dado essa ordem? Em outras palavras, quem era seu chefe? E quem eram os outros 23 fotógrafos que, segundo ele, foram aprovados no concurso que selecionou esses profissionais para trabalhar na Polícia Civil? O que eles fotografavam, por ordens de quem e o que mais faziam? Por que agora, 36 anos mais tarde, ele resolve se expor publicamente e contar sua história? Que outras pessoas o conheceram na época em que aqueles fatos ocorreram? E muitas outras perguntas.
Tudo isso e mais, acreditamos, deve ser investigado, de forma sábia, objetiva e desapaixonada – mas esclarecedora – pela Comissão da Verdade.
São Paulo, 7 de Fevereiro, 2012

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Sentimentário




O filme foi feito pelos estudantes Caio Mazzilli e Carolina Araujo, a partir de um texto de Marina Miyazaki. Caio conta que foi só providenciar os desenhos e animá-los. Era para ser apenas um trabalho para a faculdade, mas ficou tão fofo que foi parar até no 16º Festival Brasileiro de Cinema Universitário. E a fama está se espalhando. "A gente não esperava por isso", diz Caio. Inspirado pelo curta, ele diz que também mudaria algumas definições do dicionário, como "Fusca azul": para ele, lembra uma viagem bem gostosa.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Dona Doida - Adélia Prado





Uma vez, quando eu era menina, choveu grosso
com trovoadas e clarões, exatamente como chove agora.
Quando se pôde abrir as janelas,
as poças tremiam com os últimos pingos.
Minha mãe, como quem sabe que vai escrever um poema,
decidiu inspirada: chuchu novinho, angu, molho de ovos.
Fui buscar os chuchus e estou voltando agora,
trinta anos depois.  Não encontrei minha mãe.
A mulher que me abriu a porta, riu de dona tão velha, 
com sombrinha infantil e coxas à mostra. 
Meus filhos me repudiaram envergonhados,
meu marido ficou triste até a morte,
eu fiquei doida no encalço.
Só melhoro quando chove.

Texto acima foi extraído do livro "
Poesia Reunida", Editora Siciliano - 1991, São Paulo, página 108.

Dia 2 de Fevereiro Dia de Festa no Mar .. Odò-ìyá