Então

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Humanos deixaram a África 65 mil anos antes, diz estudo


map of Africa

Por Michelle Martin
 Os humanos modernos trocaram a África pela Arábia até 65 mil anos antes do que se imaginava, e seu êxodo foi possível graças a fatores ambientais, e não pela tecnologia, disseram cientistas na quinta-feira.
Suas conclusões sugerem que os migrantes seguiram uma rota direta da África até a Península Arábica, e não pelo vale do Nilo e o Oriente Próximo, conforme sugeriam estudos anteriores.
Uma equipe internacional de pesquisadores estudou um antigo "kit de ferramentas" com machados, perfuradores e raspadores, desenterrado no sítio arqueológico de Jebel Faya, nos Emirados Árabes Unidos.
"Nossas descobertas deveriam estimular uma reavaliação dos meios pelos quais nós, humanos modernos, nos tornamos uma espécie global", disse Simon Armitage, da Universidade de Londres, que participou do estudo.
Usando a datação por luminescência - técnica usada para determinar quando grãos minerais foram expostos ao sol pela última vez - eles descobriram que as ferramentas de pedra tinham de 100 a 125 milênios de idade.
Hans-Peter Uerpmann, da Universidade Eberhard Karls, em Tuebingen (Alemanha), que coordenou a pesquisa, disse que essas ferramentas se pareciam com objetos produzidos por proto-humanos no leste da África, o que sugere que "não foram necessários feitos culturais específicos para que as pessoas deixassem a África."
A pesquisa, publicada na revista Science, sugere que fatores ambientais, como o nível dos mares, foram mais importantes para a migração do que as inovações tecnológicas.
Os pesquisadores analisaram registros do nível do mar e das mudanças climáticas, preservados na paisagem desde o último período interglacial - cerca de 130 mil anos atrás -, para determinar quando os humanos poderiam ter cruzado para a Ásia.
Eles concluíram que o estreito de Bab al-Mandab, entre a Arábia e o Chifre da África, teria se tornado mais reduzido naquela época, quando o nível do mar estava mais baixo, e que isso serviu como rota segura antes e no começo do último período interglacial.
Uerpmann disse que o estreito poderia ter sido transitável com maré baixa, e que provavelmente os humanos modernos o cruzaram a pé, ou então em botes e jangadas.
Considerava-se anteriormente que os desertos árabes teriam impedido um êxodo a partir da África, mas o novo estudo sugere que a Arábia se tornou mais úmida durante o último período interglacial, com mais lagos, rios e vegetação, facilitando a sobrevivência humana por lá.
Há um grande debate a respeito do momento em que os humanos modernos deixaram a África, mas pesquisas anteriores sugeriam que o êxodo ocorreu pelo Mediterrâneo ou pela costa árabe em torno de 60 mil anos atrás.
Reuters

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

"Revolução de Jasmim" é exclusiva da Tunísia




Paul Achcar 
1) Glaciação  

Em meados dos anos 1970, o líder político libanês Kamal Joumblat pressentia a evolução dos regimes árabes rumo a um sistema único, com "o pior dos regimes comunistas e o pior das ditaduras militares da América Latina". Pouco tempo depois, Joumblat caiu vítima das balas sírias do sistema que ele denunciava. A partir daquela época, a distinção entre monarquias conservadoras tribais e repúblicas progressistas militares – estabelecida com o nasserismo – ficou obsoleta, como se um sistema único, um despotismo afro-asiático de "tipo árabe” tivesse se instalado de modo inamovível. As repúblicas redescobriam suas raízes tribais e as monarquias se militarizaram. O comunismo sumiu, assim como as ditaduras latino-americanas.  O mundo transformou-se, mas o universo árabe ficou congelado em um sistema único. Saddam no Iraque, Assad na Síria, Kadhafi na Líbia e muitos outros chegaram com um golpe de Estado, e nunca mais saíram do poder. Vieram para ficar, como se disse gentilmente. Salvo a morte, claro.  

A tela do sistema único se fundiu: como os xeques e os reis árabes eram muitas vezes sucedidos pelos irmãos, os filhos aprenderam a derrubar os pais, como no Qatar. Os presidentes das Repúblicas, por sua vez, começaram a preparar seus filhos para o poder. Dessa forma,  se forjou uma expressão nova, a "republarquia". O porquê desta glaciação remete a implosão do movimento nacional árabe com a derrota vergonhosa das repúblicas durante a Guerra de 67. Na falta de um projeto, todos os gatos viraram pretos, e a cegueira esta intensa, como diria Saramago… E nessa noite sombria, sem projeto ou alternativa, o islamismo (na suas mais diversas formas) preencheu o espaço deixado pelas oposições leigas (ou laicas). Ele parecia o último refugio para os pobres deixados na margem, um contra-sistema simples e eficaz, e o único que sobrava…  

A história do mundo árabe a partir dos anos 1980 se reduziu a uma luta feroz e muitas vezes desigual entre o despotismo "republarquista" e islamismos tenazes. Com o decorrer do tempo e mais ainda depois de 2001, esses regimes se promoveram como fortalezas para conter o islamismo, que por sua parte se transformou na única oposição real, como se diz do "voto útil".  

Leia mais no Opera Mundi: 
Surpresa: a Tunísia era uma ditadura
Saara Ocidental, uma terra ocupada
Uma revolução começou — e será digitalizada  Wikileaks, vazamentos e uma nova diplomacia mundial 
Sobre a barbárie imperialista, a crise do capital e a luta dos povos
Queda de presidente da Tunísia não deve aliviar protestos, diz especialista
  

Os acontecimentos da Tunísia acabam com esta história que se repete como um metrônomo desde décadas. É a única ruptura endógena – o exemplo iraquiano é uma ruptura exógena – na longa noite da glaciação árabe. Graças à Al Jazeera, entre outras, a cidadania televisiva árabe teve a sensação de sair de uma hibernação sem fim quando ela viu o temido Ben Ali, o chefe de governo militar que derrubou o histórico Bourguiba em 1987 com um golpe "medical", choramingar na televisão como uma criança e fugir dois dias depois.  

2) Movimento     

As televisões por satélite são muito importantes para circular a informação, mas não podem transformar o telespectador em militante. Geralmente, elas fazem o contrário.  Muito devagar com a teoria do contágio. Se a questão é saber se existe em outros países árabes – Jordânia, Egito, Síria, Argélia, Líbia são os casos mais citados – condições análogas às tunisianas, a resposta é inequivocamente positiva. São muitos os países onde as condições são iguais, quando não piores em termos de miséria, desemprego, repressão e violação dos direitos humanos.  

O Egito, esse gigante regional – um quarto da população do mundo árabe – mais que qualquer um. Infelizmente talvez, os povos (eles diferentes entre si) são submetidos à  regimes concretos distintos e não a uma "republarquia" abstrata. Não dá para especular que "as mesmas coisas devem produzir os mesmos efeitos". Ou será que a redemocratização sul-americana foi o resultado de um contágio? Estímulo, talvez (exceto o pequeno Paraguai, depois da redemocratização do gigante Brasil).     

De fato, a Tunísia é um país pequeno. Fica ao lado da Argélia que, no mesmo momento que a Tunísia, viu uma revolta contra o aumento dos preços dos alimentos, que acabou como acabam as revoltas deste tipo: com repressão ou na desistência do aumento. O desenrolar dos fatos tunisianos foi peculiar: um advogado desempregado trabalhava como vendedor ambulante de frutas e legumes. Um dia, um policial confisca seu carrinho, ele se queixa na delegacia, sai de lá humilhado e se imola pelo fogo. A revolta tunisiana começa depois, na repressão que surgiu durante seu enterro, o primeiro dos massacres na Tunísia.     

E sintomático, mas também patético, que depois da fuga de Ben Ali, tenha começado uma onda de imolações pelo fogo na Argélia (oito casos) , Egito (quatro), Mauritânia (um) e até um em Marselha, França! Esta epidemia merece talvez ser chamada de contágio. A especificidade do "movimento" que derrubou Ben Ali da Tunísia – onde o celular, mais do que outras redes sociais, teve um papel decisivo na organização prática (pontos e horários para manifestações) do que na divulgação de informação – foi que sua expansão nas regiões antes de chegar à capital deu ao exército o tempo de amadurecer seu posicionamento, colocando-se contra a polícia e Ben Ali. A coragem magnífica do povo, que superou o medo ao preço de 100 mortos, foi suficiente para chegar até o dia de ver o ditador virar palhaço. Depois disso, de Ben Ali, ninguém mais teve medo.  

Na Tunísia, o que possibilitou um desenrolar endógeno foi a população, pequena e homogênea, e também o fato de o país não ter petróleo. Como regime, talvez a Síria dos Assad, com seu sistema mafioso-militar que lembra mais o sistema Ben Ali. Mas Damasco tem também um perfil estratégico no oriente árabe que Tunis não tem no Magreb. Por tudo isso, pela especificidade (e a sorte) tunisiana, não vejo riscos de essa revolução se espalhar. Preocupo-me muito mais como a Tunísia sairá desse período. Porque sei que mais difícil que destruir a indestrutível fortaleza do medo, é depois, quando surgem os verdadeiros estragos da longa noite.


*Paul Achcar é jornalista e trabalhou como correspondente na América Latina para os jornais, alAkhbar, Al Hayat e As Safir e para as rádios árabes da BBC e de Monte Carlo alDuwaliya (a estação árabe da Radio France Internationale – RFI)

Paulista-Vania Bastos.



Microcrônicas Paulistanas





*Marcelino Freire - O Estado de S. Paulo
[1]LEINo bar em que aconteceu a chacina, também é proibido fumar.
[2]TRÂNSITOO problema não é o número de carros, é o número de concessionárias.
[3]BELAS ARTESRezo para que não vire uma igreja.
[4]TRABALHOSão Paulo é uma cidade que acorda, não é uma cidade que amanhece.
[5]NATUREZANa cidade o que mais tem é planta. De prédio.
[6]SARAU NA PERIFERIAMarginal, não. Poeta.
[7]CRIME
Mortos de pancadas de chuva.
[8]HELICÓPTEROQual hora caiu um em cima de um motoboy.
[9]FOGOApagaram a favela.
[10]POESIA CONCRETANo meio do caMINHO umMINHOcão.
[11]FRIOEle diz que ama São Paulo. Mas só quer sexo.
*MARCELINO FREIRE é escritor, autor, entre outros de 'Contos Negreiros' (Editora Record). Em 2004, idealizou e organizou a antologia 'Os cem menores contos brasileiros do século' (Ateliê Editorial). Nasceu em 1967 em Sertânia-PE. Vive em São Paulo desde 1991. Também escreve microcontos no twitter.
fonte: Estadão

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Tarde demais





Por Izabel Campana
Parece que foi Fernando Sabino quem disse, em crônica sobre Paris, que sentia ter chegado à cidade tarde demais. Eu tive uma experiência muito parecida quando cheguei ao Rio de Janeiro pela primeira vez. 40 graus, 40 anos atrasada.
Fui morar no Rio em 2007. Tenho que admitir, mesmo temendo a reação raivosa que certamente virá dos amigos cariocas, que me decepcionei.
Não vi nada daquilo que eu esperava. Queria ver o Rio de Tom e Vinícius. Sim, gente bonita a desfilar por praias de tirar o fôlego. Fervor de beleza, paraíso tropical dos hedonistas. Mas também queria ver muita gente inteligente. Queria ver o Rio centro pensante do país.
Queria ter estado lá para ver os gênios. Só de escritores, uma boa penca. O próprio Sabino, Rubem Braga, Manoel Bandeira, Clarice Lispector, Drummond. Isso só para citar alguns. E Nelson Rodrigues, meu herói de infância. É, eu sei, fui uma criança esquisita.
E para falar mais dos jornais: Stanislaw Ponte Preta, Carlos Castello Branco, Otto Lara Resende, Paulo Francis, Paulo Mendes Campos. Quer mais?
Tinha mais. A melhor música, a melhor vida noturna. O melhor que vinha de fora. Passou por lá, sim senhor. Queria ter estado no Rio para ver Noel Rosa, ou mesmo João Gilberto, quando ainda saía de casa. Além do melhor do futebol. Garrincha, Didi e o milésimo gol do Pelé no Maracanã.
Queria ter visto o Rio de Janeiro capital. Não balneário. Com figuras históricas interessantes. Queria assistir Missa do Galo na Corte e trocar umas idéias com Lima Barreto numa mesa de bar.
Mas a verdade é que o Rio não envelheceu bem. Perdeu os melhores dentes. Os da frente. E quando eu cheguei, nada daquilo que cresci ouvindo Tom e Vinícius cantarem estava lá.
Copacabana, Princesinha do Mar, imprópria para banho. A verdadeira Garota de Ipanema são hoje senhoras de 80 anos. Vão à praia de toca e penhoar e lotam as filas do banheiro do Cine da Roxy nas tardes de domingo.
Foi substituída por um outro ser. Uma mulher bombada, betacarotenada, siliconada e oxigenada, que não é cheia de graça.
Além da Barra da Tijuca, que encaixotou todo mundo em condomínios fechados e roubou o Glamour do posto 7.
Belezas naturais? Desde que o Gabeira meteu uma tanga fio dental e foi à praia, a paisagem não é mais segura. E quando a praia deixa de ser refúgio, o calor do Rio vira tortura. A primogenitura por um ar-condicionado!
Não é que tudo fosse ruim quando morei lá. Sinto falta de muita coisa do Rio. Os amigos, em primeiro lugar. Creio que seja bom adulá-los para ver se não perco a amizade.
Andanças pela Barata Ribeiro para tomar um suco, entrar num sebo. Visitar as livrarias, as galerias, e um honesto  restaurante chinês do centro da cidade.
Mas não. O Rio não é mais aquele que recebeu Brigitte Bardot. Assim como Brigitte Bardot não é mais aquela que visitou Búzios.
Mas também, talvez eu é que esperasse demais. Tinha feito na cabeça uma imagem de fantasia com narração de Paulo Francis, trilha sonora de Noel Rosa e fotografia de Gervásio Baptista.
Esperava encontrar um Rio de Janeiro que não é só de outra época. É de outras épocas. E é tarde demais para acreditar nesse Rio de Janeiro que sempre existiu só na minha imaginação.