Então

domingo, 23 de maio de 2010

A Revolução de Maio de 1810

O ano de 1810 foi um marco na história da libertação dos povos ocidentais. Aproveitando-se da situação dramática da metrópole espanhola ter sido invadida pelas forças de Napoleão Bonaparte, a partir de maio daquele ano surgiram inúmeras juntas governativas nas principais cidades dos vice-reinos da Ibero - américa, de Buenos Aires à cidade do México, proclamando sua independência.

Baltasar Hidalgo de Cisneros de la Torre

O último vice-rei

“Se os povos não se ilustram, se não vulgarizam seus direitos, se cada homem não conhece o que vale e o que pode e o que se lhe deve, novas ilusões sucederão as antigas...’

Mariano Moreno- 1810.


Quando o vice-rei do Prata Baltazar Hidalgo de Cisneros desembarcou no trapiche de Buenos Aires, no ano de 1809, saltou em meio a um vespeiro. Ainda que os portenhos o acolhessem bem, a cidade inquieta acompanhava tensa o que ocorria na metrópole. A Espanha estava ocupada pelas tropas de Napoleão e somente a região da Andaluzia ainda resistia ao invasor. Mais um tanto, e o que restava da autoridade espanhola - o Conselho da Regência - reduzia-se à cidade de Cádiz e a uma pequena ilha de Léon. Por tudo predominava o caos e o horror que Goya denunciou.


Cabildo aberto de Buenos Aires (tela de Pedro Subercaseaux)

O trono de Madri estava ocupado por José I, irmão de Napoleão, enquanto Fernando VII, herdeiro legítimo dos Bourbon, cativo do francês, conclama os súditos a se rebelarem contra o usurpador. Além disto, a princesa Carlota Joaquina, esposa de Dom João VI exilada no Rio de Janeiro, e irmã de Fernando, igualmente reivindicava a soberania sobre o vice-reino.


Na beira do rio da Prata acirravam-se as desavenças entre espanhóis e crioulos e entre republicanos favoráveis à independência em disputa contra monárquicos fiéis ao velho manto ibérico, e também entre mercantilistas e livre-cambistas. Tudo estava prestes a explodir.

O grande império


O império espanhol das Índias era um colosso: sua cabeça estava sob sol a pino seus pés quase no pólo sul. Do deserto do Colorado ao norte, seu poder estendia-se por mais de dez mil quilômetros até a Terra do Fogo, no extremo sul, próximo à Antártida. Era duas vezes maior do que o antigo império romano e fora construído sobre as ruínas dos grandes impérios indígenas da América pré-colombiana: o asteca, o maia e o inca. Agora era a vez dele vir abaixo.


A coroa real disputada entre bonapartistas e bourbons numa Espanha em frangalhos estimulou a que os povos coloniais almejassem sua independência. Cisneros foi o ultimo dos representantes daquela imensa máquina burocrática ibérica que por três séculos controlava tudo deste lado de cá do Atlântico. Desterram-no em 25 de maio de 1810


Um novo contrato


Mariano Moreno, um patriota argentino tradutor de Rousseau ( falecido precocemente aos 32 anos em seguida a ter aberto a primeira biblioteca do país), secretário da Primeira Junta presidida por Cornélio Saavedra, concluíra que rompido o contrato colonial (das colônias com a Metrópole) estabelecia-se no seu lugar um contrato social no qual o povo local, rejeitando qualquer soberania sobre si, assumia-se como autônomo senhor do seu próprio destino.


Todavia, se a ascensão dos criolos portenhos ao poder não foi traumática, se a Revolução de Maio não derramou sangue de imediato, os tempos seguintes seriam terríveis. Durante ainda mais 15 anos, patriotas (San Martin, Simon Bolívar, Gervásio Artigas, Bernardo O´Higgins, Antonio Sucre, etc.) e realistas (a mando de Fernando VII) se enfrentaram pelo império inteiro em combates memoráveis (Chacabuco, Maipu, Boyacá, Carabobo, Ayacucho) até que a Espanha exausta teve que concordar com a independência das suas ex-colônias. Foi uma das maiores revoluções políticas do Ocidente e precursora da libertação dos povos colonizados do Terceiro Mundo.


Bibliografia


Bethel, Leslie (org.) – História da América Latina: da independência até 1870. Vol. III.São Paulo. EDUSP. 2001.

Busaniche, José Luis – Historia Argentina. Buenos Aires: Solar-Hachette, 1975.

Feimann, José Pablo – Filosofia y Nación. Estúdios sobre el pensamiento argentino. Buenos Aires: Ariel, 1996.
Floria, Carlos Alberto – Belsunce, César A. Garcia – Historia de los argentinos. Buenos Aires: Ediciones Larousse Argentina, 1992. 2 v.

Pigna, Filipe – 1810 – La outra historia de nuestra revolucion fundadora. Buenos Aires: Planeta, 2009.

Ramos, José Abelardo – Lãs masas y las lanzas [1810-1862]. Buenos Aires. Editorial Plus Ultra, 1973.

Vives, J.Vicent (Dir.)– Historia Social y Económica de España y America. Vol. V- Los siglos XIX e XX. America Independiente. Barcelona: Editorial Vicent Vives, 1974.

fonte: Terra


sábado, 22 de maio de 2010

História do rock de Brasília chega às telas

Vladimir Carvalho, 75 anos, estava lá quando tudo começou e agora vai levar essa história ao cinema


BRASÍLIA - Manhã de sábado em Brasília. O cineasta paraibano Vladimir Carvalho, 75 anos, flana pelas cercanias do desértico setor de Rádio e Televisão, no centro da capital do País. Lugar hoje bem mais pacífico do que há duas décadas, quando as nuvens da ditadura estacionavam por ali. Vladimir fala sobre o seu novo longa-metragem, o documentário Rock Brasília, Ninguém Segura Essa Utopia.

Em 1988, Vladimir, à época catedrático da Universidade de Brasília (UnB), surpreendeu-se com a febre que assaltava a juventude daquela cidade. Teve então a ideia de filmar a cena roqueira do Distrito Federal. Em 80 minutos, Rock Brasília captura a insurgência de três das fundamentais bandas ‘candangas’ surgidas ali: Legião Urbana, Plebe Rude e Capital Inicial, das quais possui íntimo e valioso arquivo contendo oito horas de imagens nunca antes exibidas. "O filme costura largamente a história do rock brasiliense. Dos derradeiros resquícios de ditadura à democrática virada", diz Carvalho. É documento para a posteridade dos 50 anos do Distrito Federal. Sua estreia será na 43.ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, em novembro.

Os jovens universitários de classe média, alcunhados sob a nomenclatura de ‘Turma da Colina’ (ou ‘Geração Coca-Cola’), alojavam-se nos prédios-dormitórios da UnB. Destes, muitos atraíram popularidade e fanatismo. Vladimir conta que, há 22 anos, havia um exército de 200 bandas alistadas pela cidade. Porém, não se sabe onde nem como viabilizavam espaços para tantos shows ou se havia público para tal. É dessa leva que surge o ‘trovador solitário’ Renato Manfredini Júnior, Renato Russo.

O documentário trará outros personagens da cena, como Phillipe Seabra, da Plebe Rude, e Dinho Ouro Preto, do Capital Inicial, flagrados em momentos cruciais de suas carreiras. As cenas de shows capturadas por Vladimir, às quais o Estado assistiu com exclusividade, são impressionantes. Uma delas mostra o pandemônio no qual se converteu o show da Legião Urbana no Estádio Mané Garrincha. No dia 18 de junho de 1988, fazia um ano que a banda não pisava na cidade. Antes de enfrentar a desvairada turba de 50 mil pessoas, Renato Russo - no auge de seu messianismo involuntário - concedeu a Carvalho uma entrevista que está no longa.

Altamont. Outra imagem mais nonsense é a filmagem do pomposo casamento de Philippe Seabra, líder da Plebe Rude. "O documentário foca no mais genuíno produto da cultura brasiliense. Ou seja: o rock", defende o diretor.

O Estádio Mané Garrincha foi o cenário em que centenas de fãs se digladiaram durante o fatídico concerto da Legião Urbana ‘não ocorrido’, no dia 18 de junho de 1988. Nessa noite, a turba de 50 mil pessoas fez Brasília viver seu dia de Altamont. Cerca de um ano e meio após a última passagem da Legião pela cidade natal, ninguém queria perder a volta de Renato Russo. "Eram milhares dispostos a sangrar em nome do ‘salvador’", lembra o editor do magazine franco-brasileiro Brasuca, o brasiliense Daniel Cariello. "A Legião era amada tal qual os Beatles em Liverpool", compara.

Um fanático conseguiu invadir o palco e enlaçar Renato Russo na metade da música Conexão Amazônica. Está tudo filmado. "Renato xingou a plateia e a plateia devolveu. Clima de guerra civil", diz a testemunha ocular, que tinha 14 anos à época. O guitarrista e um dos fundadores da Legião, Dado Villa-Lobos, não comenta o episódio. "Para não macular a biografia da Legião Urbana", diz.

Outro lance polêmico do rock federal envolveu a novata Plebe Rude e a Legião num festival em Patos de Minas (MG), em 1981. Ao final das apresentações todos foram para o xilindró. Alegação: teor contestatório das composições. No show, a Plebe tocou Voto em Branco e a Legião atacou de Música Urbana 2. Foram soltos após a polícia ser informada que todos ali eram rebentos de políticos e diplomatas da capital do Brasil. O fundador da banda, Phillipe Seabra, que também é consultor do filme, conta que esta seria a primeira vez que a Plebe tocaria fora do Distrito Federal. "O Renato viu na oportunidade a première de sua nova banda e resolveu nos chamar", pontua Seabra, elemento que vinha sendo sondado para ser o guitarrista da Legião.

A equipe de Vladimir vai agora retornar a Patos de Minas com a banda para recontar a história. "Seria a oportunidade de fazermos as pazes com a cidade", afirma Seabra, que chama o acontecimento de "a maior operação policial da história de Patos de Minas desde que a comitiva de Getúlio Vargas passou por lá a caminho de Barbacena."

Eduardo e Mônica. Outro ‘causo’ a ser retratado é sobre as lendas por trás do hino de amor que embalou uma geração, Eduardo e Mônica. O artista circense Marcelo Behr é um dos Eduardos nos quais Renato buscou inspiração. A canção baseia-se em três Eduardos e três Mônicas diferentes. "Renato tinha bloquinhos nos quais anotava tudo para depois editar", revela Behr.

Sempre que via um casal que dava certo, segundo o amigo, o cantor regozijava-se. Mesmo se não fosse com ele. Os traços da personalidade do amigo estão em estrofes como "e ele jogava futebol de botão com seu avô". O camelinho citado na canção, na verdade, é a bicicleta que ainda hoje Behr pedala no Parque da Cidade, igualmente referendado na composição. Marcelo, entretanto, afirma que Russo inspirou-se totalmente nele para compor Acrilic on Canvas, escrita na casa de Behr: "Conversávamos muito sobre história da arte, pontos de fuga, Renascença, perspectiva. Ele me perguntava a respeito dos pigmentos e misturas das tintas e assim nasceu a música", relembra.

A artista plástica Leo Coimbra era amiga íntima de Renato e foi uma das musas inspiradoras de Mônica. Leo nunca estudou Medicina, como diz a letra. Mas, por conta de suas vaciladas no manuseio dos pincéis, estava sempre "com tinta nos cabelos." Os dois eram bons amigos e passavam até cinco horas falando ao telefone.

"Grande parte dos momentos mais especiais passei ao lado dele", conta Leo. Enquanto a movimentação rocker se desenrolava, Leo, com 20 e poucos anos à época, cuidava de dois filhos pequenos e fazia traduções para um jornal da cidade. "Não participei e não influí nele. Claro que frequentando a nossa casa, Renato escreveu algumas letras lá e fomos, durante certo tempo, um bom e fraternal refúgio para ele." Algo que se pode vislumbrar além da suposta musa. Saudosa, a pintora fala do amigo com saudade: "Na minha casa ele era pessoa da família. Nem já famoso deixava de me acompanhar à escola de meus filhos. Tinha, claro, que dar muitos autógrafos no caminho. Nossa convivência era bem tranquila. Durante a temporada em que morei em Washington, passei a escrever para ele com frequência. Mas o Renato preferia me telefonar."


Cristiano Bastos no Estado de São Paulo

terça-feira, 11 de maio de 2010

São muitas as saúvas do Brasil


Neste ano eleitoral, vivemos um Fla x Flu maluco: "Eu sou de esquerda, você é de direita! Eu sou socialista, você é neoliberal."

Acontece que nossa vida social é movida por outras categorias, muito além dessa dualidade. Temos de tudo. Há paranoicos, esquizofrênicos, psicopatas, narcisistas (vejam o Lula em lua de mel consigo mesmo...) e, descendo mais de nível, temos os imbecis em geral e um vasto catálogo de vícios. Vamos começar pelos caretas.

A caretice é uma visão de mundo que passa despercebida, mas é raiz de terríveis males. O careta é antes de tudo um forte. Está sempre atrás de certezas, ou melhor, já chega com elas. Olha o mundo com um olho só e só vê o que já sabia. A diversidade da vida é recusada como um desvio, a dúvida, como fraqueza. O careta tem sempre um sorriso pronto ou uma cara fechada, dependendo se é do tipo "careta legal" ou "careta severo". Sua cara é uma careta - daí, o nome -, uma máscara fixa que denota uma ideia só na mente. A caretice não é uma posição política; é um sistema operacional. Ele finge aceitar as diferenças, mas não vê o "outro". O chamado "outro" é um mal inevitável que ele tem de suportar para controlá-lo, para que ele não o inquiete com surpresas. Careta odeia novidades. O careta é linear - tem princípio, meio e fim.

O careta tende mais para o que se chamava de "direita": só ele existe, com suas ideias indiscutíveis. Há muitos caretas de "esquerda" que só querem uma sociedade sob controle, pois só eles sabem o que é bom para nós, os alienados. Existe até o careta drogado, o bicho grilo chamado "muito louco". Como disse um amigo meu: "Pior que careta só o "muito louco""...

Temos também a categoria da burrice que, como dizia Nelson Rodrigues, é uma "força da natureza". Antigamente, os cretinos se escondiam pelos cantos, roídos de vergonha; hoje, eles andam de fronte alta e peito estufado. Nunca a burrice fez tanto sucesso. Há no mundo da política e da vida social a restauração alegre da estupidez. Lá fora, Forrest Gump, o herói idiota foi o precursor; Bush foi seu efeito, como outros hoje em dia: há o Chávez, há aquele ratinho do Irã que o Lula vai visitar... tantos. Bush se orgulhava de sua burrice. Uma vez em Yale, ele disse: "Eu sou a prova de que os maus estudantes podem ser presidentes dos USA." E nosso Lula não se gaba de não ter lido nada? Inteligência é chato; traz angústia, com seus labirintos. Inteligência nos desampara; burrice consola.

A burrice está na raiz do populismo. Para muitos, a burrice é a moradia da verdade, como se houvesse algo de "sagrado" na ignorância dos pobres, uma sabedoria que pode desmascarar a mentira "de elite". Só os pobres de espírito verão a Deus - reza a tradição. A burrice dá mais ibope, é mais fácil de entender. A burrice é a ignorância com fome de sentido. O problema é que a burrice no poder chama-se "fascismo".

Outra saúva que nos ataca é a incompetência. Existe muito mais na chamada "esquerda" que entre os velhos "neoliberais". Os "ideológicos" vivem de ideias "puras". Nada mais chato para eles do que a realidade, apesar de falarem nela o tempo todo. A realidade brasileira para eles é um delírio, com meia dúzia de "contradições" óbvias. Antigamente, era latifúndio, burguesia nacional e imperialismo. Agora é a tentativa de tomar o Estado por dentro da democracia. Eles dizem que a competência é um tecnicismo que pode ser usada para mascarar "táticas demoníacas" do capitalismo.

Outro vício que nos rói é a liberdade. Sim... Não a "boa", mas a liberdade como fetiche, vulgar produto de mercado. É a democracia vivida como zona: êxtases volúveis de clubbers, celebridades saltitantes de "liberdade" dentro de um chiqueirinho de irrelevâncias, a vida vivida como um "reality show" esquemático, buscando ideais como bundas querendo subir na vida, próteses de silicone na alma, o sucesso sem trabalho, o marketing sexual, a troca do mérito pela fama. A arrogância individualista das celebridades é uma das saúvas do País.

Outro vício nacional além da esquerda e direita é a política do espetáculo. Guy Debord (A Sociedade do Espetáculo) cita Feurbach:

"Nosso tempo prefere a imagem à coisa, a cópia ao original, a representação à realidade, a aparência ao ser." Debord: "O espetáculo não quer chegar a outra coisa senão a si mesmo (...) onde o mentiroso mente a si próprio. O espetáculo é inseparável do Estado moderno." (Estão reconhecendo alguém?) No Brasil, a política do espetáculo foi descoberta por Jânio Quadros. Lula é um bom aluno.

Outro vício é o "passadismo rancoroso"; mais praticado pela "esquerda" burra, a República é tratada no passado. Vivem a nostalgia de torturas, heranças malditas, ossadas do Araguaia e nenhum projeto claro para nosso futuro. Há um passadismo regressista, regado pela vingança de fracassos coletivos e individuais, como se a vida social de hoje fosse a decadência de um passado que estaria no rumo certo. Há uma fome de marcha à ré nacionalista, terceiro-mundista, de voltar para a "taba" ou para o casebre com farinha, paçoca e violinha.

Também adoram condenar injustiças que já houve... Esse vício emprenha "coisas muito nossas", como a falta de imaginação política para o futuro, a retórica das impossibilidades, a vida pública em câmera lenta, onde a única coisa que acontece é que não acontece nada.

Mas, há mais... há mais... Temos os egoístas, os psicopatas (muito em moda...), os ladrões compulsivos, os "fracassomaníacos", temos as imensas multidões dos "babacas" (oh... serei um deles?..), comandados pelos boçais, cafajestes, oportunistas, ladrões de todas as cores.

De modo que não podemos nos contentar com a velha dualidade "direita/esquerda"; o mundo é muito mais vasto, oh "Raimundos" e vagabundos!...

E mais: principalmente no Brasil, não podemos esquecer os batalhões que crescem a cada dia, os exércitos invencíveis: a brilhante plêiade dos "F.D.Ps".

fonte: O Estado de São Paulo